sexta-feira, 14 de maio de 2010

Uma manhã

Acordou cedo por algum motivo que nem bem sabia. Olhou pra ele do seu lado na cama, achou-o tão lindo... tão, seu. Suspirou. Espreguiçou. E devargarzinho [pra não acordá-lo] foi levantando da cama enorme e macia. Deu um beijo na testa dele, e um sorriso.

Lembrou que sempre quis ter uma cama enorme e macia, pra dormir ao lado de alguém que ela amasse a ponto de sentir dor no peito quando ficasse longe.

Agora ela tinha a cama. E alguém que ela amava muito mais do que um dia imaginou.

O vento entrava pela fresta da porta da sacada. Estava entreaberta desde a noite anterior. Os raios de sol já atravessavam a janela, 6:15. A noite tinha sido especialmente agradável.

Calçou as pantufas, foi preparar um café. O cheiro do café e a música que ela cantarolava da cozinha o despertaram. Ele ligou a tv para assistir o jornal matinal. Era domingo.

Então logo a mesa estava pronta. Café quentinho, leite quentinho, pão quentinho. Queijos, frutas e suco. Torrada e geléia. Metade de um bolo.

Ela ouviu a TV ligada, e foi ver se ele já estava acordado. 7:02.

Ele estava no banheiro. Tomava uma ducha morna, sem pressa, relaxando. Com certeza sairia logo para comprar o jornal de todos os domingos, antes mesmo do café.

Ela pensava se ele se lembraria. 25 de junho. Mas não tocou no assunto. Queria que ele se lembrasse sozinho. Que esse dia tivesse importância pra ele.

Saiu do banho. Cheiroso, sorridente, com um bom humor invejável.

- Bom dia meu amor! Docilmente ele disse.
- Bom dia! Com um sorrisinho, ela respondeu.
- Vou atrás do meu jornal, não demoro viu?
- Tudo bem. O café já tá na mesa.

7:40.

Ela escuta a porta bater, mas não o vê entrar. Está com uma xícara de café na varanda, lendo seu livro enquanto espera.

Ele entra com o jornal. Ela abaixa a cabeça, "até agora ele não tocou no assunto".

- Amor, olha só essa notícia aqui.

Ela pega o jornal. Ele passa o braço por trás dos ombros dela, e beija-lhe a nuca. Eles conversam sobre futebol, sobre o tempo, sobre os programas de tv. E ela fica feliz, mesmo sem ele ter feito nenhuma surpresa. Tudo como sempre foi. E do que eu preciso mais? Sou feliz demais.

Mas no fundo no fundo ela esperava que até a hora do almoço ele aparecesse com flores, ou quem sabe um passeio, um jantar mais tarde. Sem dúvidas, apareceria. E ela sabia disso.

8:21.

sábado, 28 de novembro de 2009

Um vazio, reticências e algumas dores

"Lá venho eu novamente com meus dramas", reconheci.

Mas era tão terrível me sentir assim sozinha. E pior que isso, era pensar que ele estava longe agora. Longe de mim. E como isso doía, como me machucava o peito. Não imagino que doa tanto partir quando tenho por perto.

E ele está com ela. Será que dormiu ao lado dela? Será que vai tomar café junto com ela e sua filha na mesa? Como uma família? Eles são uma família, eu tinha que acordar.

Senti uma vontade fúnebre de chorar. Minha cabeça latejava, e o calor me fazia suar. Meu coração batia descompassado. Um sensação horrível.

"Ele volta, ele volta"..

Mas o que importa é que ele não está aqui agora.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A casa

E lá moravam - pelo menos temporariamente - cinco homens. Um estava de viagem, então, restavam quatro naquele momento. O que estava de viagem, era um negão. Mineiro. Nem magro nem gordo, com uma barriguinha a mais. Era bem calmo, então, deram-lhe um apelido que fizesse por merecer. Imagine aí.

O segundo (ordem a qual estabeleci em minha mente) , era um paulista. Alto, bastante alto. Alto o suficiente para chamar a atenção das pessoas. Devia ter lá quase uns dois metros de altura. Era magro também. E seu cabelo era loiro e liso. Ele ganhava relativamente bem, e havia conquistado certa estima em seu trabalho. Isso dava à ele, um tom de arrogância. Ela só incomodava às vezes. Nas vezes que não incomodava, ele era legal. O tal loiro era o mais novo da casa.

O terceiro, era um baiano. Branco, que renegava às origens pré-julgadas. Olhos e cabelos claros, o levavam ainda mais longe de sua terra natal. Mais pra gordinho que pra magro. Gostava muito de conversar e tomar uma cervejinha. Tinha um sotaque carregado, que aos poucos foi esmorecendo. Era brincalhão e querido.

O quarto, era um ex-gordo. Do interior de Minas. Era bulímico, e vivia tendo compulsões. Constantemente, era motivo de piada. Penso que aquele homem devia sofrer, mesmo fingindo que não.

O último, era um gordo da língua presa. Também de Minas Gerais. Vivia pendurado no seu laptop, em salas de bate papo, com perfis falsos. Era engraçadinho, e comilão. Mulherengo até a última instância. Adorava um cabaré.

...

(continua)


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Entre o céu e o inferno

Vivia entre o céu e o inferno com ele. Eram momentos perfeitos, e logo depois, momentos de sentimentos insuportaveis, sentimentos que faziam o coração comprimir a ponto de escorrer agonia pelos olhos. Mas o cheiro dele, o cheiro dele a prendia. O cheiro dele fazia com que os pensamentos dela estivessem ligados a ele durante todo o tempo. Ela lutava contra os sentimentos que a levavam a acreditar que sem ele ela não poderia viver. Ela lutava contra tudo aquilo que à ameaçava passar noites de choro de novo. Mas estar com ele era tão bom, e alguma coisa dentro do peito dela à condenava a encarar qualquer destino que fosse, para estar junto a ele, mesmo sentindo essas dores.

Quando cheguei, ele me olhou nos olhos, e viu que havia algo errado. "Já me conhece como ninguém..", pensei comigo. Me deu um beijo, e perguntou como eu estava. Respondi que estava tudo bem. Havia cortado os cabelos bem curtos, o que deixava seu rosto redondo e fazia transparecer todas as pequenas ruguinhas em torno dos olhos. Eram tão bonitas.

E então conversamos por alguns minutos, e ele me indagava a respeito de haver algo errado comigo. Aparentemente, eu estava como em todos os dias. Ele comentou que meus cabelos estavam bonitos, e meu perfume gostoso. Mas continuou me indagando sobre haver algo errado. Disse que não era nada. Eu apenas estava lutando comigo, estava lutando para ser aquela pessoa que eu deveria ser. Sem devaneios, loucuras, obcessões. Estava tentando ser a menina que eu deveria ser. A menina que ele ama.

Tínhamos pouco tempo. Ele me disse que passaria apenas para me dar um beijo de boa noite. Meu coração batia de uma maneira diferente quando eu estava ao seu lado. Ao mesmo tempo, me sentia vitoriosa por ter conseguido ser quem eu queria naqueles minutos. A menina que ele ama. Eu estava no céu.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

E o sono já pesava minhas pálpebras. O teclado barulhento, a cama macia me parecia extremamente atraente. Eu queria ir. Mas meu coração perturbado não queria. Se eu fechasse a porta daquele quarto, me sentiria só mais uma vez. Que medo assombrante era esse que me assolava? Que desespero, que dor sem chão. Era como se a minha vida em flash-back passasse toda em frente a meus olhos, toda vez que eu tentava entender que caminho eu estava tomando. Mas passasse tão rápido, e tão embaralhadamente, que eu me perdia em meio às lembranças recentes e antigas, que se uniam num misto de sentimentos, cheiros, sensações, saudades, medos... E tudo estava tão confuso, que eu preferia deixar guardado. Pra não sentir o coração pesando no peito. Preferia deixar pra ele pesar todo de uma vez só. Quando eu me deitasse na cama, e fosse obrigada a me reconfortar no sono. Eu era feliz, e não era. Eu tinha tudo, e não tinha nada. Minha vida triste estava por um fio, mas eu tinha medo do que poderia ser uma vida feliz.

Em breve.